Lins Imperial revisita Madame Satã para falar do Brasil atual

Imagens: João Fraga | Reportagem: Amanda Martins | Produção: Ana Clara Serafim | Edição: Suellen Faria

Por Amanda Martins, da Band Rio

Uma abordagem contemporânea em forma de manifesto. É assim que a Lins Imperial vai contar na avenida, em desfile pela Série Ouro (principal divisão de acesso do Carnaval do Rio), a história de João Francisco dos Santos, o Madame Satã. Considerado o primeiro transformista do Brasil, é um dos personagens mais emblemáticos da Lapa no século 20. O enredo é uma releitura do que foi apresentado em 1990 pela escola.

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“Por a Lins Imperial já ter apresentado esse enredo, a gente fez questão de apresentar uma nova roupagem. Em 1990 ele foi tratado com muito romantismo, como bom vivant da Lapa, e não deixa de ser, mas vamos por um lado mais biográfico”, explicou o carnavalesco Eduardo Gonçalves.

Preto, nordestino e homossexual, Madame Satã fez da Lapa seu próprio mundo. Até hoje suas histórias percorrem os becos e as vielas do bairro. Dizem que era um homem violento e ao mesmo tempo delicado. Ele era Madame ou Satã? Ou os dois?

A ambiguidade era uma característica marcante. Encantava o Carnaval carioca com suas fantasias, mas era um criminoso capaz de matar e enfrentar a polícia. O apelido inclusive foi dado por um delegado, que o reconheceu como ganhador de um concurso de Carnaval quando ele foi preso.

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Para escrever o samba-enredo, os compositores tentaram dialogar os problemas da época com o Brasil atual.

“Foi um desafio tremendo, porque o enredo não é uma reedição, é uma releitura. Um novo olhar sobre Madame Satã dialogando com o Brasil e as pautas emergenciais de hoje. Fazer diferente 1990 é falar do Brasil atual, ao contrário do que foi apresentado lá atrás sem essa questão social que hoje nós discutimos”, afirma Mateus Pranto.

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Levar novamente Madame Satã para a avenida era um desejo dos integrantes da escola para comemorar os 60 anos de fundação, já que, na década de 1990, o enredo manteve a Lins no Grupo Especial. Agora, o desafio é outro.

Madame Satã – Reprodução

“A gente tem que tirar da cabeça o que o bolso não tem. O espetáculo ficou cada vez mais caro. Então as pessoas procuram fazer cada vez melhor. Pesquisar material que seja mais em conta e dê o efeito que a gente precisa para o nosso sonho, porque a gente sonha o luxo, a riqueza, o mais alto”, declara o carnavalesco Ray Menezes.

A Lins Imperial nasceu da fusão de duas escolas de samba do bairro. A última vez que a agremiação esteve no Grupo Especial foi em 1991. Este ano a Lins vai em busca de “resistir para existir”.

“Hoje ele é muito mais que um nome, ele representa a bandeira LGBTQIA+, dos movimentos renegados, das travestis, dos corpos invisíveis. É muito mais que um nome. É um samba manifesto”, conclui Gonçalves.

Romulo Tesi

Romulo Tesi Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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