Dercy Gonçalves já desfilou no Carnaval mostrando os seios na Sapucaí; relembre

Dercy Gonçalves mostrando os seios no desfile da Viradouro de 1991 – Foto: Wigder Frota, de facebook.com/unidosviradouro

Reportagem publicada originalmente em 2016, no Band.com.br, por acasião dos 25 anos do desfile da Viradouro em homenagem a Dercy Gonçalves (1907 – 2008), que faria aniversário nesta segunda (23)

A noite ainda não caíra naquele domingo de Carnaval de 1991 quando Dercy Gonçalves surgiu no topo do abre-alas da Viradouro. A escola de Niterói, que estreava no Grupo Especial do Rio de Janeiro, começava um longo período de permanência entre as grandes com uma imagem que entraria para a memória da folia: a atriz, homenageada no enredo, exibindo os seios e mandando beijos para o público.

“Foi pura ousadia dela”, lembra o carnavalesco Mauro Quintaes, atualmente na Unidos da Tijuca, na época trabalhando com Max Lopes na criação do enredo “Bravo, bravíssimo – Dercy, o retrato de um povo”.

A ousadia nem passara pela cabeça do costureiro Lucas Pinto, autor da fantasia. A roupa era um vestido normal, que cobria os seios. Na hora do desfile, por decisão própria, Dercy decidiu “incrementar” o decote e, como muitas musas faziam, foi de peito aberto rumo à Praça da Apoteose.

“Não foi problema de medida. Ela que quis botar os peitos pra fora”, lembra Quintaes. “Depois ela colocou a culpa no costureiro, que o vestido não estava servindo… Mentira, não foi nada disso”, completa Lopes.

Acidente e chuva

A escola fez um grande desfile, histórico, um dos mais lembrados pelo povo do samba, e terminou em 7º lugar – um resultado inesperado para quem acabara de subir. Ainda mais porque muita coisa parecia conspirar contra.

Os problemas começaram em janeiro, pouco antes da apresentação. Dercy, já uma senhora de 83 anos, sofreu um acidente de carro em meados de janeiro e fraturou a bacia. No hospital, ainda em recuperação, os médicos vetaram o desfile. Nada de carros alegóricos altos ou guindastes, nem emoção. Mas Dercy, tão conhecida pelo talento e irreverência como pelo destemor – e a boca suja –, nem cogitou perder a festa.

“Fui visitá-la três dias depois do acidente e ela nem cogitou faltar. Ela disse ‘eu vou sim, nem pense que não vou’, isso seguido de um monte de palavrões”, recorda Lopes, que planejava outro enredo para 1991, até que o então presidente José Carlos Monassa Bessil decidiu pela homenagem a Dercy.

Lopes lembra que se surpreendeu e se emocionou na primeira entrevista com a artista, que de início foi reticente com a homenagem. “Ela contou tanta coisa triste da vida dela que chorei, fiquei com pena. Primeiro ela ficou na dúvida, mas expliquei que queríamos falar da alegria da Dercy, e ela aceitou”, conta o carnavalesco.

Palavrões em rede nacional

No dia do desfile, lá estava Dercy, sob chuva, de cadeira de rodas, emocionada e dando entrevistas sem economizar os palavrões. Como revela a transmissão da extinta TV Manchete, a comediante só mostrou alguma preocupação com a logística que a colocaria no carro alegórico.

“É que brasileiro faz tudo pela metade, né, minha filha?”, reclamava, pedindo a concordância da repórter Leila Cordeiro, antes de completar: “a coisa está muito bem, muito bonita, mas a gente despenca e se fode de verde e amarelo”. A esta altura, Dercy, amparada por três homens, já estava com os seios aparentes.

A plataforma içada pelo guindaste começava a subir e Dercy fazia pouco dos ajudantes-psicólogos. “Deus nessa hora está meio distraído”, disse, em frase complementada por palavrões, mas sem sinal de aborrecimento. Isso sob uma chuva que não dava trégua.

Dercy foi tirada da cadeira de rodas e assumiu seu posto no carro, para desfilar de pé. Ela se apoiava nas barras de segurança e no médico, vestido de fraque a cartola, escalado para acompanhá-la. E sem dor, graças a um “Voltaren de supositório” (medicamento anti-inflamatório), conforme berrou para os microfones da imprensa.

Sem demonstrar medo, cruzou a avenida sob ovação do público. “Ela não deu trabalho algum de estrelismo. Foi muito profissional e se emocionou de verdade”, lembra Lopes. Ao chegar na Apoteose, cercada pelos jornalistas, já no chão, resumiu o que sentia.

“Tô tremendo toda. Porra, esse negócio é emocionante pra caceta. Não imaginei que com 83 anos teria esse sucesso. Puta que pariu…”. discursou, talvez ainda sem saber que havia entrado para a história do Carnaval.

Romulo Tesi

Romulo Tesi Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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