
Foi uma noite esquisita. Ou que pelo menos acabou esquisita, ainda “de noite” – algo que pode parecer estranho, mas faz todo sentido para a turma do Carnaval. E que teve uma roda de samba sob os arcos da Apoteose após o último desfile, diante de um público com atenção rarefeita, mas sem o show da aurora emoldurando a última escola.
O pagode foi a atração derradeira do primeiro dia de desfiles das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro, neste domingo 2, quando foi colocado à prova a nova configuração da disputa, com quatro agremiações em três noites.
“Vai ter palavrão”
No começo parecia normal. Inclusive quando o público da Marquês de Sapucaí teve a expectativa atendida e ouviu, pela primeira vez na divisão principal da folia, a jovem diretora de Carnaval da Unidos de Padre Miguel encerrar seu discurso com um sonoro palavrão motivacional à comunidade.
“‘Vamo’ botar pra fuder”, gritou Lara Mara, 20 anos de idade e ocupando cargo de liderança na escola recém-promovida ao Grupo Especial.
Quem conhece a fera, não esperava outra coisa. Na verdade, torcia para que se repetisse a cena vista tantas vezes em ensaios e desfiles no acesso.
“Vai ter palavrão e vai ter desabafo também”, anunciou Lara ao blog, pouco antes de entrar na avenida para o esperado discurso.

“Tem umas coisas com que eu estou engasgada, e que eu tenho certeza que a minha comunidade precisa ouvir”, completou, referindo-se não ao palavrão, mas ao discurso em defesa dos enredos sobre religiões de matriz africana, que é o caso do Boi vermelho da Zona Oeste.
“Não temos vergonha!”, gritou para os componentes, que, assegura Lara, também fazem questão de ouvir os palavrões. “Teve uma vez que eu não falei, e a comunidade pediu muito. Então acho que é isso que importa”, explicou a diretora antes do desfile.
“Ex-Certinha”
Em seguida, a Imperatriz Leopoldinense fez exatamente o que se esperava de uma favorita. A escola de Ramos botou pra fuder, como diria Lara Mara, e entrou rasgando com o “Itan de Oxalá”, a saga do orixá rumo ao reino de Oyó.
No que foi o maior show da noite, a bateria de Mestre Lolo, o gogó do cantor Pitty de Menezes e a turma da Leopoldina produziram uma massa sonora digna do que no futebol chamam de “amasso”. Não por acaso os componentes se abraçam – desde que a fantasia permita – e pulam de um lado para o outro de forma coordenada, como coreografia de torcida organizada, ao ouvir os pimeiros “vai começar” entoados por Pitty. Logo ela, a “Certinha de Ramos”.
“Ex-Certinha de Ramos”, corrige Pitty ao blog, citando o carnavalesco Leandro Vieira como dono da nova alcunha. Sim, são tempos de Imperatriz rolo compressor, que desfilava quando “Ainda Estou Aqui” vencia o Oscar, para a festa de quem soube do prêmio em meio ao fuzuê promovido por Lolo e Pitty.
“Com a queda em 2019, a gente fez o resgate da comunidade. E aí a Imperatriz passa a ser uma escola feliz. Ela quer vir para a avenida, ela quer brincar, ela quer ser certinha, mas ela quer ser uma certinha feliz”, explicou a presidente Cátia Drumond.
Além do canto, o domínio que o consagrado carnavalesco Leandro Vieira tem da arte de contar uma história com fantasias e alegorias credencia a Imperatriz a mais um título. Entre as principais concorrentes, a Viradouro, atual campeã, que chegou à Sapucaí inspirada pelo aguerrido samba sobre Reis Malunguinho.
“Vocês não estão sozinhos”
O líder quilombola tornado entidade afro-ameríndia, cultuado nos terreiros de Catimbó, inspirou o que muitos consideram o melhor samba do ano. Com uma abertura forte, a Viradouro entrou acesa para buscar o bi seguido, algo que não acontece desde 2007-08 com a Beija-Flor.
“Malunguinho tem uma mensagem a dizer: ‘Vocês não estão sozinhos. Eu estou do lado de vocês. Eu sou de vocês'”, diz Paulo Cesar Feital, um dos autores do incendiário samba que arrebatou fãs dentro e fora da chamda “bolha do Carnaval”.
Ainda que tenha causado estranheza a alguns a rica palheta de cores e dourado para falar de Malunguinho , a escola de Niterói mostrou opulência e arrojo que podem convencer os jurados.
O Rio é banto, mêo!
E faltava a Mangueira. A escola entrou na Sapucaí para defender uma tese: a de que o Rio de Janeiro é banto. E assim o carnavalesco Sidnei França, importado de São Paulo, provou seu ponto com um desfile de fácil leitura, onde a herança africana desemboca no passinho dos crias de Mangueira, estrelas da aplaudida comissão de frente verde e rosa.
E o tamanho da escola lembrou os tempos da Manga rica, ainda nos anos 2000.
“Pelo menos na Mangueira não faltou dinheiro”, disse a presidente Guanayra Firmino, listando patrocínios, parcerias e outras fontes de recursos. “A gestão do Gabriel [David, presidente da Liesa] foi muito importante para isso.
Gestão que passou pelo primeiro teste pra valer neste domingo, quando foi dado o start na nova forma de organização dos desfiles. Mas a turma estranhou o horário.
Explica-se para quem é de fora da bolha: terminar a noite e começar o dia com o sol ofuscante tomando a Marquês de Sapucaí é uma tradição criada praticamente com o próprio nascimento do Sambódromo, a Passarela Professor Darcy Ribeiro.
Com apenas quatro escolas e uma pontualidade poucas vezes vista no Carnaval, o último desfile terminou ainda no breu da noite, bem antes do amanhecer. Antes, às 2h, o lado dos Correios da concentração na avenida Presidente Vargas já estava totalmente vazio. Ao longe se via uma alegoria que já havia dado a volta e esperava para retornar ao barracão.
Do outro lado, a Mangueira ainda contornava um problema de engarrafamento de alegorias na dispersão quando o samba da roda começou. O público, aos poucos, achava o caminho enquanto a música dos camarotes em alto volume competia com o pagode do fim da festa.
“Teve gente que me perguntou onde era a roda de samba”, contou um amigo do blog. Enquanto isso, uma turma fazia o caminho inverso, broxada pelo arrastão “esquisito” – palavras de outro amigo do blog – e pela falta dele, o sol. E a tradicional aurora da Marquês deu seu show para o menor público da história.




Adicionar comentário